quarta-feira, 3 de abril de 2013

Nem tudo que brilha é Ouro



Notável o crescimento do mercado de cervejas “especiais”, “gourmets” ou “artesanais”. Isso se deve ao trabalho de muitos que amam fazer/trabalhar com cerveja. Vide o número expressivo de  cervejarias surgindo no país, segundo o MAPA (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento) que fiscaliza o setor, no ano passado surgiram 31 novas cervejarias no país, um número expressivo e que tende a aumentar com o passar do tempo.


Interessante notar que junto as novas cervejarias, estilos pouco conhecidos pelos consumidores brasileiros começam a se tornar populares, alguns caindo facilmente no gosto do povo.
Um estilo de cerveja tem como base quatro princípios básicos: teor alcoólico, cor, amargor e características sensoriais (aroma e sabor).  Além de todo conteúdo histórico que determinado estilo carrega ao longo de séculos de tradição. Todos estes critérios estão baseados em duas instituições americanas, o BJCP (Beer Judge Certification Program) e a Brewers Association que publicam e cuidam das atualizações dos guias de estilos.


Com isso, não poderia desenvolver uma cerveja ale escura, com 7% de álcool e dizer que é uma Pilsen, longe disso, uma Pilsen, seja Bohemian ou German, tem que ser dourada, ter de 4% até 5,5% de álcool, etc. Por isso existem regras para classificação de estilos, para que não tenha confusão na hora de produzir uma nova cerveja e orientar o consumidor sobre o que ele está comprando. Estes guias também servem de base para competições cervejeiras.


Na atual cena cervejeira brasileira, temos diversas cervejarias fazendo a lição de casa bem feita, seguindo a tradicional escola alemã, ou então fazendo ótimas cervejas belgas e aquelas que utilizam como referência a antiga escola inglesa. Além destas três, temos cervejarias inovadoras seguindo a tendência americana em produção de cerveja, uma nova escola que ainda irá escrever muitas páginas na história da cerveja mundial.
Entretanto nem tudo que brilha é ouro, percebe-se algumas cervejarias que “ainda não se encontraram” afirmando que estão fazendo um determinado estilo, que ele é daquele jeito e pronto! Sou da opinião que realmente não deve haver limitação na criação, mas desde que esta inovação seja benéfica e que agregue ainda mais personalidade ao estilo. 


Este pensamento de dono da razão é prejudicial, pois educa de maneira errada o consumidor, querendo dizer que 2+2=5. A tendência do momento é fazer estilos de cervejas com forte personalidade de lúpulo, com cada vez menos lúpulo. E dizer que a cerveja não é americana é inglesa, se referindo as duas escolas cervejeiras. Afirmam que os americanos são apaixonados por lúpulo, e isso é verdade, fazem cervejas extremamente lupuladas, outra verdade. E que os ingleses, inventores de muitos estilos com forte personalidade de lúpulo, fazem cervejas com pouco lúpulo, com pouco amargor, uma mentira sem vergonha. Claro que uma IPA Americana é diferente de uma IPA Inglesa e que ambas são muito diferentes de algumas IPA’s Brasileiras, que ficam no limbo e não sabem para onde irão. Isso acontece com Pale Ales também.


Não dá para deixar isso passar em branco, sem avisar a todos, antes que se torne moda falar “a minha cerveja não é americana, é inglesa, por isso é suave e tem mais malte do que lúpulo no sabor”, isto falando de uma IPA. Um bom exemplo de cerveja inglesa disponível no mercado é a tradicional Adnams que o MR. BEER está importando exclusivamente para seus pontos de venda. A Adnams Ghostship é uma Pale Ale que apresenta lúpulo do começo ao fim, é bem amarga e um final seco que pede outro gole. Então, por favor, nada de querer me dizer que sua cerveja é inglesa, pois vou contestar, e não me venha então dizer que é uma versão “abrasileirada” do estilo, para que o consumidor não se assuste. Se está com medo, para que veio? Ou então, se não aguenta vai produzir leite.


Existe inúmeras maneiras de conseguir informações sobre estilos, visite o país de referência, compre livros, pesquise na internet, consulte um cervejeiro caseiro, contrate um bom beer sommelier para trabalhar junto, tenha um pouco de cuidado com o que informa, pois todos queremos crescer, e juntos com o mesmo objetivo e conhecimento, será mais fácil. 

6 comentários:

João Sperb disse...

Muito bom Paulo Feijão!

Concordo que deve-se seguir os estilos e não começar a "das para trás". Não é passando a mão na cabeça que se educa.
Por outro lado os cervejeiros devem fazer cervejas "abrasileiradas" sim, seguindo uma tendência natural da preferência do público. Afinal, foi assim que surgiu uma IPA "americana".
Quem sabe logo não teremos uma "Estilo X Brasileira".

Um grande abraço e parabéns pelo seu trabalho que agrega tanto valor aos temas cervejeiros!

Gil Lebre disse...

fiquei curioso, veio um monte de rótulo da Adnams importado pela Mr. Beer (vale ressaltar que também tá sendo vendida na Mamãe Bebidas), qual o nome dessa Pale Ale?

Paulo Feijão disse...

João,

Obrigado pelo comentário e pela força, estamos juntos. Sobre o "abrasileirar", é o termo que está sendo utilizado para tirar personalidade dos estilos, e não como deveria ser, ou seja, agregar ainda mais ao estilo com um toque brasileiro. Infelizmente.

Gil, obrigado pela informação que na Mamãe Bebidas também estão disponíveis as Adnams. A Pale deles é a Adnams Ghostship. Vale experimentar.

Jota Queiroz disse...

Excelente!
É patético esse lance de "abrasileirar".
A maioria usa isso para fazer cervejas sem graça e uma minoria acha que é preciso enfiar na cerveja qualquer fruta silvestre.
Se fosse isso, o único estilo americano seria o Pumpkim.
Brasileiro é sempre vira-lata e acha que uma cerveja com pitanga ou açaí vai criar uma escola.
Parabéns!

Armando Fontes disse...

Vai caber a nós, mudar a reputação do termo "abrasileirar", de pouca personalidade para alta.

João Sperb disse...

Entendi! Bom, isso é uma pena mesmo...pois cerveja pode ser leve, mas não precisa ser super ultra light (água com gás colorida).

Mas o prognóstico é bom, farsantes e amadores não duram muito tempo. O próprio mercado acaba com esse tipo de "enganação".

Ultimamente, e isso eu digo com muita satisfação, quando vou comprar uma cerveja eu posso comprar várias marcas nacionais que fazem grandes cervejas. E a cada dia vejo mais rótulos dessas boas cervejas!

Um grande abraço!